Desde criança, tivemos em casa muitos animais de estimação. Um deles, porém, nos marcou consideravelmente. Não que os outros não tenham deixado sua marca, mas este... Era um gato siamês, grande, barrigudo, preguiçoso, um bom companheiro. Ele morreu esta noite.
Como disse no início, sempre tivemos animais: cachorros das raças rotwailer, akita, pastor alemão, dálmata, labrador, vira-latas, até um pombo eu já criei. Mas os gatos, não sei, sempre gostei de tê-los – acho que sua independência preenchia o que faltava em mim. E embora digam que são interesseiros, os meus eram amorosos e cúmplices.
Meu primeiro gatinho foi presente da minha avó. Era um filhote de sua gata P&B. Os gatos da minha avó eram sempre P&B. Os meus, não. Geralmente eram rajados de cinza, branco e preto, mas já tive um completamente preto, de olhos amarelados, bastante peralta, confesso: o terror da minha mãe. Adorava arranhar seu sofá. Ele morreu atropelado. Só soube da notícia depois. Na maioria das vezes, eles sumiam. Acho que cansavam e iam buscar outros ares. Ou quem sabe, minha mãe arranjava outra família para eles às escondidas – ela fez isso com um cachorrinho que tive uma vez, desde então, duvidei do sumiço de alguns bichos.
Nunca fui de colocar nome em gatos. Em cachorros, sim; eles precisam mais disso. Mas os gatos... Eu os chamava de bichano. Eles nunca reclamaram, acho até que gostavam bastante. Nosso último gato foi um presente para a minha mãe, que como eu, partilhava de um amor especial pelos felinos. Eu devia ter treze ou catorze anos e morávamos no interior. Meu pai e eu compramos, na verdade, dois gatos siameses. Eles eram inseparáveis e manhosos.
Um dia, a filha da vizinha me chamou para reconhecer um gato que ela encontrara no beco de sua casa. Morto. Era um de meus gatos. O menor. Já devia estar morto há alguns dias e cheirava mal. Não consigo lembrar o que fizemos com ele. Lembro apenas da tristeza do outro gatinho que agora tinha que se contentar somente com nossa companhia. Mas nos saímos bem.
Depois que nos mudamos para a capital, o bichano tornou-se mais caseiro, engordou bastante e ficou ainda mais preguiçoso. Ele adorava estar no meio das pessoas, sempre à procura de um afago carinhoso ou de um pé para se recostar. Lembro de seu olhar sonolento e de seu miado agudo quando nos via com seu pratinho de comida.
Doze anos de amizade! Ele reinava entre todos os animais, inclusive os cachorros considerados mais ferozes de casa. Nenhum deles ousava se aproximar do meu bichano, que os dominava apenas com o olhar – e unhadas de vez em quando.
Nos últimos dias, porém, algo nos preocupava. A idade pesava demais naquelas patinhas; minha mãe achava que ele estava ficando surdo. O olfato já não era mais o mesmo, andava cansado. Vinha dormindo perto do portão da garagem, o que nos preocupava, pois o fluxo de carros era frequente.
Ontem à noite, o esperado aconteceu: meu irmão o atropelou ao entrar na garagem. Meu pai foi testemunha, mas não sabia dizer o quanto o acidente poderia tê-lo machucado. Ouvimos sua voz preocupada. Eu e mamãe saímos à procura do bichano. Fui até o portão, na esperança de que ele tivesse só se assustado e saído para rua. Estava escuro. Minha mãe o achou deitado na lavanderia. Quando nos viu, soltou um miado dolorido. Meu coração ficou apertado. Não conseguíamos encontrar nenhum sinal de ferimento aparente.
Papai o pegou nos braços e o colocou em cima da mesa da garagem. O gatinho respirava ofegante e sua língua estava pálida. Percebemos que ele não conseguia andar direito, o que nos fez pensar que a lesão fosse na coluna, pois as patinhas não pareciam quebradas.
Mamãe lhe deu um remédio para a dor e um antiinflamatório. Eu trouxe água. Coloquei uma compressa de gelo em sua coluna. Depois de um tempo, parecia melhor. Forramos um cantinho no chão e ele ficou quietinho. Pedi a meus pais que o levássemos ao veterinário, mas já era tarde, estávamos sem carro (meu irmão já havia saído), minha mãe achava que não havia nenhum pet shop aberto. Ele realmente parecia melhor.
Um tempo depois, minha irmã chegou da faculdade e fui abrir a porta. Contei a ela o ocorrido e aproveitamos para dar uma olhada no bichano. O encontramos próximo à porta e respirava cansativamente, como outrora. Chamamos mamãe. Minha irmã telefonou para uma amiga que tem animais e ela nos falou de um pet shop 24h perto de sua casa – disse que ia avisar o veterinário da situação. Mamãe o colocou em um travesseiro e seguimos eu, ela, minha irmã e minha tia rumo ao pet shop. O bichinho lutava, a respiração fraca. Quando enfim chegamos, já não contínhamos o pranto. O veterinário e seu ajudante aplicaram-lhe remédios, massagem cardíaca, mas era tarde. Eles disseram que não havia fraturas, nem hemorragia. Sua resistência estava debilitada devido à idade e provavelmente já estava doente, o que só agravou seu quadro.
No caminho de volta para casa, o silêncio. Minha mãe o trazia nos braços, sobre o travesseiro. Agora, eu continha o choro e vinha olhando a paisagem através da janela. Não queria vê-lo. Estava zangada com meu irmão, com meus pais que não deram um jeito de levá-lo logo ao veterinário, comigo mesma, por não ter lhe dado atenção ultimamente. Ainda no carro, olhei para ele um instante e seus olhos estavam entreabertos. Parecia o mesmo olhar sonolento de sempre.
Em casa, o colocamos em cima da mesa da garagem novamente. Eu e minha tia o observamos com cuidado. Confesso que ainda procurava algum sinal de vida. Era tarde, mas não podíamos descuidar de um desfecho digno para aquele bom companheiro.
Fomos ao quintal. Eu peguei uma pá e uma enxada. Cada um cavou um pouco. Foi difícil – o solo era muito pedregoso. Cavamos uns três buracos até conseguirmos uma profundidade adequada. No começo, o clima ainda era pesado, mas depois estávamos rindo de nossa falta de habilidade com aqueles instrumentos. Eu me vi criança novamente, “estudando” anfíbios com minha irmã e outros amigos em um matagal perto de casa.
Quando, enfim, terminamos, minha tia o colocou cuidadosamente dentro do buraco. A primeira pá de terra trouxe novamente aquele clima fúnebre. Colocamos madeira em cima para que os cachorros não o desenterrassem. E minha mãe declarou que nunca mais criaria gatos.
Hoje, quando vi seu pratinho de comida, senti uma tristeza profunda. Se os gatos têm sete vidas, onde é que eu estava quando o meu bichano perdeu suas outras seis?
8.14.2009
O GATO DA MINHA MÃE
4.30.2009
4.29.2009
5.15.2008
Nas asas do vento
Nas ondas do marEla molha os pés
Com a brisa da praia
Ela vai ao céu
Navegando à deriva
Sozinha segue seu caminho
Viajando sem rumo na vida
Aonde vai chegar?
Aonde vai chegar?
Talvez chegue nas asas do vento
Ao meu pensamento
Talvez viaje o mundo
E quem sabe sem
Nunca chegar
A algum lugar
Que a leve pra longe do tempo
E encontre um alento
Que possa fazê-la parar
De caminhar...
11.20.2007
FUMAÇA

Minha vida é cercada por sinais de fumaça que se perdem com a garoa da tarde.
O chão molhado alivia o que o fogo não conseguiu queimar. E foi tão pouco...
Tão pouco é o tempo que me resta nesse quarto fechado, entre paredes verde-esperança que já não há. Entre fios e tubos que me sufocam. O ar não é mais tão leve como outrora.
Meu corpo é quente. Não como os dias de verão em que meus pais me levavam à praia. O mar não pode mais me refrescar. Talvez apenas sua lembrança.
Mas o que é, então, o lembrar senão chama que arde sem nunca cessar?
É como palavra proferida insanamente e palavra é fogo: queima, impiedosa, o meu silêncio involuntário.
Estou presa, sufocando nesse quarto sem janelas. As minhas estão trancadas por essas pequenas cápsulas de alívio instantâneo.
Meus braços, não os sinto mais. Eu, que achei que nunca precisaria de abraços...
8.15.2007

A penumbra delineia seu corpo nu, debruçado sobre a cama, sua brancura se destaca na escuridão do quarto.
Eu toco sua pele, impregnada de suor – num movimento involuntário você se mexe, como se me dissesse para não tocá-lo. Parece que me repudia depois do exaustivo e prazeroso ato.
Tento dormir, mas há tanta coisa em minha mente...
Deitada de frente pra você, admiro seu semblante sereno. O desenho – perfeito! – de seus lábios me causa calafrios.
Você, enfim, abre os olhos, fixa-os nos meus e diz que me ama. Você é tão lindo depois do sexo!
Sua mão toca meu rosto e, em seguida, meu seio. Sinto um arrepio e me perco novamente em seus braços.
Os dias têm sido mais claros e a brisa mais suave...
7.02.2007
Tambor de Crioulaterra do babaçu
do cacuriá
tambor-de-crioula
e do bumba-meu-boi
ah, Maranhão!
terra de um homem só
lugar onde o passado se faz presente
se até hoje os teus mares têm dono
quando há de ser paga tua alforria?
há quem diga que no Maranhão não há verdade
é terra onde até o sol mente!
“M. Maranhão, M. Murmurar, M. Maldizer, M. Mexericar, e, sobretudo, M. Mentir”
como refutar
se também o dicionário aplica sua sentença?
em meio à miséria... a beleza inocente de uma terra humilde
como um diamante bruto te apresentas
terra das palmeiras
M. Maranhão de Muitas Maravilhas!
Maranhão de poetas
de súplicas a Deus
por um dia a mais para o canto dos pássaros ouvir
Maranhão onde o amor
a alegria
e a saudade têm o seu lugar
Maranhão de Josés
Ferreiras
Machados
e Dias
dias e dias a declamar poesias!
terra de lençóis tão brancos quanto a areia do mar!
lugar onde a segunda pessoa se faz primeira
e mais importante
ah, Maranhão!
quantos em teus encantos se perderam!
quantos em teus mares de águas turvas já morreram!
ao mesmo tempo em que és belo
ó Maranhão
és também traiçoeiro.
