8.15.2007

Quero amar intensamente, perdidamente. Tantas e quantas vezes a loucura de amar me permitir. (Devaneios na solidão de um ônibus)


A penumbra delineia seu corpo nu, debruçado sobre a cama, sua brancura se destaca na escuridão do quarto.
Eu toco sua pele, impregnada de suor – num movimento involuntário você se mexe, como se me dissesse para não tocá-lo. Parece que me repudia depois do exaustivo e prazeroso ato.
Tento dormir, mas há tanta coisa em minha mente...
Deitada de frente pra você, admiro seu semblante sereno. O desenho – perfeito! – de seus lábios me causa calafrios.
Você, enfim, abre os olhos, fixa-os nos meus e diz que me ama. Você é tão lindo depois do sexo!
Sua mão toca meu rosto e, em seguida, meu seio. Sinto um arrepio e me perco novamente em seus braços.
Os dias têm sido mais claros e a brisa mais suave...

7.02.2007

Tambor de Crioula

M. MARAVILHAS

terra do babaçu
do cacuriá
tambor-de-crioula
e do bumba-meu-boi
ah, Maranhão!
terra de um homem só
lugar onde o passado se faz presente
se até hoje os teus mares têm dono
quando há de ser paga tua alforria?
há quem diga que no Maranhão não há verdade
é terra onde até o sol mente!
“M. Maranhão, M. Murmurar, M. Maldizer, M. Mexericar, e, sobretudo, M. Mentir”
como refutar
se também o dicionário aplica sua sentença?
em meio à miséria... a beleza inocente de uma terra humilde
como um diamante bruto te apresentas
terra das palmeiras
M. Maranhão de Muitas Maravilhas!
Maranhão de poetas
de súplicas a Deus
por um dia a mais para o canto dos pássaros ouvir
Maranhão onde o amor
a alegria
e a saudade têm o seu lugar
Maranhão de Josés
Ferreiras
Machados
e Dias
dias e dias a declamar poesias!
terra de lençóis tão brancos quanto a areia do mar!
lugar onde a segunda pessoa se faz primeira
e mais importante
ah, Maranhão!
quantos em teus encantos se perderam!
quantos em teus mares de águas turvas já morreram!
ao mesmo tempo em que és belo
ó Maranhão
és também traiçoeiro.

5.31.2007

Ação de reintegração de posse de terras na “invasão Vila do Povo”, Paranã
D. Francisca das Chagas, 36, desmaia ao ver sua casa ser demolida. O filho, Francisco das Chagas, 13, se desespera com a dor da mãe (FOTO: Douglas Jr.).


Uma casa foi derrubada. Uma família desolada. E os donos de terra continuam com suas imensas propriedades vazias.
Até quando mães terão que morrer por uma vida digna? Até quando seus filhos terão que chorar por um sonho desfeito?
Derrubam-se casas e os alicerces de uma família inteira em troca de status. Que realidade é essa, distorcida? Que palavras estão usando, que não consigo entender? Estarei ficando cega ou com problemas de audição? Então, que gritos são esses que ouço da janela do meu quarto?

5.15.2007

PONTO DE VISTA


A vida é uma viagem e você tá sempre correndo de um lugar para o outro. Algumas vezes se perde, outras acaba se encontrando de vez. O problema é quando você passa tão rápido que não enxerga as placas de sinalização e aí termina dentro do 1º burado do asfalto. Ou quando a vegetação tá muito alta na beira da estrada e, por isso, você distorce as poucas coisas que consegue ver através dela.


Quando o dia tá claro, a viagem é agradável e dá até pra sentir o perfume das flores que a gente encontra no caminho. Mas quando chove e escurece, dependendo da velocidade em que você viaja, e das condições da estrada, pode ser que você fique preso na lama, atolado.


Foi preciso pegar a estrada para ver como a vida é, como as coisas são.


Ainda tem muita cidade pra conhecer e alguns buracos pra desviar. Ou cair...


Tomara que eles não sejam fundos demais.

3.07.2007

Cultaminação

Pra que rabiscar versos sem sentido se nem eu, você ou qualquer outro entenderá o que há no poema? Se a poesia fugiu numa dessas gramáticas cotidianas repletas de regras de sintaxe...
Fingi-se compreender os absurdos de uma ½ dúzia de cultuadores de uma seita esquizofrênica ou funda-se uma nova religião de fundo de quintal. O que dá no mesmo.

2.03.2007

Prece

















Perdida
Entre homens, pedras e algumas poucas flores
Senhor, a água está muito fria
E a sede me consome
O que há para beber?
Minhas pernas vacilam
Meus ossos quebram a cada queda
E os teus ouvidos, Senhor...
Minha prece tem chegado a eles?
A chuva é um triste lamento
Que não suporto mais ouvir
Eu não posso mais

Minhas mãos não guardam
Nenhuma esperança

Estou perdida
Para onde caminhar?
Meus passos
Não Te encontram
Onde estás?
Onde estou, Senhor?
Longe, tão longe...
E a água é muito fria
Sigo pelas encostas
Escorregando algumas vezes
No lamaçal que me envolve
Podes me ouvir, agora?
O ar me sufoca
A água está fria
Mas meu coração queima
Dentro do peito
Podes me ouvir?
Ou estou perdida?

1.14.2007

FEITO NUVEM

O tempo parou pra eu te ver – linda! – passar, toda vestida de azul.
Você sorriu, mas não sei ao certo se foi pra mim. Acho que não. Seus passos, leves, hipnotizam meu olhar, que te acompanham ao atravessar a rua.
Onde será que ela vai?
Não importa. Ela não me leva consigo, mas eu vou com ela mesmo assim, seguindo seu caminhar perdido pelas ruas da cidade.
Você é tão perdida quanto eu. Talvez ainda não saiba disso.
Pensa que é feliz!
Seu vestido dança a cada movimento de pernas. Seus olhos registram os transeuntes, mas ninguém em específico. E eu sou apenas mais um vulto.
Ela é feita de sol e brisa. Seu brilho fere meus olhos e seus cabelos suspensos no ar me deixam tonto. Fico assim, inebriado com sua presença fantasmagórica. As palavras saem soltas, todas de uma vez, mas nenhuma chega a seus ouvidos. Você corre cada vez mais, agora pela areia da praia. Seu vestido azul se confunde com o mar – ou seria com o céu? Já não sei o que é céu ou chão.
Meus olhos se fecharam por causa da areia que voou quando você correu. No instante seguinte, você havia desaparecido, feito as nuvens de algodão doce que minha mãe fazia nos dias de festa. Deve ter voltado para os meus sonhos. Por que é que você sempre foge quando tento te alcançar?

12.20.2006

Por não estarem distraídos

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.
Clarice Lispector

11.23.2006

(A VISITA-Continuação...)

Eles eram assim, inconvenientes como todo bom parente que se preze. Haviam chegado há poucas horas e já se transformaram no pesadelo da pequena Clara, que se via imobilizada naquela sala, menor a cada segundo.
Chegava a noite e aquela visita parecia chegar ao fim, pelo menos era o que Clara queria. Foi quando a cozinheira avisou que o jantar estava servido. Todos da casa sentaram-se nos lugares de sempre. A madrinha sentou-se ao lado de Ivete e o padrinho, para o espanto de todos e horror da afilhada, sentou-se à cabeceira.
Como ousava?!
Com um peso no olhar, a mãe conteve a menina, que explodia de raiva e tristeza. A mãe também não gostara da atitude mal-educada do compadre, mas, como boa anfitriã, relevou a indelicadeza.
Todos comeram, ouvindo os conselhos dispensáveis do padrinho, que falava pelos cotovelos e causava náuseas na pequena.
Após o jantar, as visitas tomaram mais um cafezinho e despediram-se. A madrinha apertou forte as bochechas de Clara mais uma vez e o padrinho apenas estendeu a mão para dar-lhe a benção.
Clara ficou na varanda, vendo o carro sumir no horizonte: queria ter certeza de que haviam ido embora.
A mãe a chamou para dentro, queria evitar um resfriado – a menina sempre tinha o nariz escorrendo. Ao entrar, pediu a benção à mãe e foi deitar-se.
Ivete encontrou Clara já adormecida, à meia luz, abraçada ao retrato do pai. Beijou-lhe a face e em sua testa fez o sinal da cruz. Desligou a luz do abajur e deixou a porta entreaberta, permitindo que um feixe de luz iluminasse o leve sorriso que Clara inconscientemente ostentava.
O relógio já marcava 7 da manhã e a menina acordara imensamente alegre – havia tido um pesadelo à noite passada e estava feliz por tudo não ter passado de um sonho ruim.
Correu para a praia e, como de costume, rodopiava na areia com o cabelo no rosto. Usava sua saia rodada que rodava rodava com ela e com a brisa da praia. Parou de repente, meio tonta. Era a mãe que gritava seu nome. Lembrou-se do pesadelo que tivera. Clara deu as costas para a casa e caminhou em direção ao mar. A mãe continuava a chamar por ela, que se perdeu entre as ondas.

11.14.2006

A VISITA

Caminhava na ponta dos pés. Toda meiguice de menina. Sua saia rodada rodava ao sopro do vento e ela soltava gargalhadas, enquanto corria sem rumo pela praia, logo cedo.
Os pés, minúsculos, roçavam a areia, que lhe cobria o corpo inteiramente. Seus olhos negros, profundos, enchiam-se de lágrimas na tentativa de olhar o sol, que irradiava sublime aquela manhã. Definitivamente, acordara feliz.
Ouviu sua mãe a chamar. Correu em direção ao quintal, perdeu-se entre as roupas no varal e dançou um instante com elas. Podia sentir-se suspensa, como os lençóis que bailavam ao sopro da brisa.
A mãe gritou uma vez mais seu nome. O chão nunca pareceu fugir-lhe tanto. Deixando pra trás a leveza do momento, dirigiu-se à casa um tanto zangada: a mãe sempre interrompia sua abstração!
_ Mãe! Disse, com toda a birra de criança mimada.
A mãe a repreendeu com o olhar.
_ Venha tomar a benção de seus padrinhos!
Clara surpreendeu-se. Não via os padrinhos desde o batizado e, como na ocasião, era muito pequena, podia-se dizer que nem mesmo os conhecia. Não fazia questão de conhecê-los agora. Queria mesmo era correr pela praia ou entre os lençóis no varal. Perder-se de sua mãe, da casa, das obrigações com a família... E neste momento, dos padrinhos.
Não entendia por que tinha de ter tanta consideração com pessoas que nunca antes haviam dado notícias. E se acontecesse alguma coisa terrível com sua família? Onde estariam os padrinhos que, pela tradição, deveriam acolhê-la? Ficou extremamente zangada, entortando os lábios, como de costume. Tomou a benção e saiu de mansinho para seu quarto.
A irmã surgiu de repente e a mandou vestir o vestido cor-de-rosa.
_ Mamãe mandou! Falou com a autoridade de irmã mais velha.
Clara odiava o vestido cor-de-rosa. Odiava a cor, o vestido, o modo como ficava parecendo uma bonequinha de porcelana colocada na vitrine. Ela só queria correr pela areia, com sua saia rodada que rodava rodava rodava.
Ao voltar para a sala, encontrou a mãe e os padrinhos sentados a tomar o cafezinho-das-visitas. Ficou ao lado da mãe, o olhar baixo para não fitar aqueles seres estranhos que invadiam sua rotina sem ao menos pedir licença.
A madrinha, uma mulher gorda e sorridente, de bochechas rosadas de pó, caminhou em sua direção e a puxou para sentar-se em seu colo.
Quis, desesperadamente, fugir, mas a mulher a prendeu rapidamente entre seus braços. Não pôde fazer nada. Estava presa naquela teia de gordura e flacidez. Mostrava os dentes, amarelados pelo café, entre o riso solto e apertava forte as bochechas da menina, que via a irmã desdenhar da infame situação em que se encontrava.
A estranha elogiava-lhe o vestido cor-de-rosa e tecia comentários inoportunos sobre seu cabelo.
_ Mas este cabelo está precisando de uma hidratação! Veja como é seco de sol e mar! Ivete, não podes deixar a menina solta pela praia!
Como ousava dize tamanho absurdo?! Acabava de chagar e já se achava no direito de pôr o bedelho em todo o lugar!
A pequena Clara olhou para a mãe com os olhinhos cheios de cólera. A mãe retribuiu apenas com um sorriso amarelo, tentando disfarçar o desconforto.
Foi então que Judite, a cozinheira, adentrou à sala com uma bandeja de biscoitos. Clara pôde ver-se livre daqueles braços repugnantes, que se moviam agora em busca de comida.
Era horrível aquela visão! Podia ver o alimento dentro daquela boca imensa e as migalhas, que saltavam para fora dela, enquanto falava sem parar.
Nesse instante, o padrinho, que se mantinha quieto até então, começou uma peregrinação pela sala.
Era um homem pálido, magricela, com ar aristocrático. Olhava a casa, ao seu redor, com certa curiosidade, o que causava desconforto à família de Clara. Depois de algum tempo em silêncio, o homem com nariz empinado sentencia:
_ Esta casa precisa de uns reparos. Uma pintura aqui, uns retoques ali, nada que um homem de visão não possa resolver.
Clara deu um salto do sofá, mas a mãe a segurou firme, apertando seu braço como repreensão, antes que ela pudesse dizer o que estava entalado em sua garganta. Aquele homem detestável atrevia-se ao ponto de achar-se o dono daquele lar, talvez até de tomar aquela pequena família como sua e ser o “homem da casa”! Ninguém jamais tomaria o lugar do pai, falecido havia um ano. A cabeceira da mesa permanecia imaculada, sua presença era ainda viva demais naquele lugar e assim seria pra sempre, pensava Clara.
(Continua...)

10.30.2006

Para Ana Paula

Ana Paula, certa vez, me contava sobre suas estripulias de menina de Açailândia. Fiquei encantada com o saudosismo que havia em suas palavras.
A menina da rodoviária

Gostava de encontros e despedidas. Por isso ia sempre à rodoviária. A mãe inúmeras vezes brigava com a menina, tinha medo de, algum dia, entrar num ônibus e perder-se em outras rodoviárias.
Catarina vivia ali, no meio de desconhecidos, vindos de perto e de longe. Era um lugar sujo e fedia a maior parte do tempo a frango e fritura. Somente de manhã bem cedo o aroma era agradável. As moças do café preparavam uma bebida bem forte, que exalava pela rodoviária inteira, e enrolavam o beijú de tapioca com coco, que dava água na boca em todos que passavam por lá nesse horário. Era realmente uma delícia as manhãs na rodoviária de Açailândia.
Quando chovia, as goteiras tornavam o ambiente ainda mais decadente. As pessoas se espremiam umas contra as outras nos poucos espaços secos que havia. E a piçarra vermelha que rodeava a velha rodoviária se transformava em um lamaçal escarlate, que coloria a paisagem cinza de Açailândia, nos dias de chuva.
As crianças corriam e esbarravam nas bagagens e caixas, espalhadas pelo chão. Riam e choravam a cada reencontro e a cada triste despedida. Os olhinhos mergulhados em lagoas salgadas que sucumbiam ao adeus ou até logo de familiares e amigos. Elas só extravasavam o que as gentes grandes teimavam em abafar pelas plataformas da rodoviária.
Catarina fez muitos amigos ali. Pessoas que revia uma vez ou outra quando, de passagem, saltavam na cidade. Outras, porém, nunca mais encontrou e deixaram apenas saudade na pequena viajante. “Pequena viajante”. Era assim que a chamavam, zombando de seu estranho prazer em perder horas a fio na rodoviária da cidade. Horas que eram marcadas por um grande, sujo e velho – como tudo ali, aliás! – relógio de parede. Pareciam correr lentamente aqueles ponteiros, tornando os dias naquele pedaço de Açailândia ainda mais enfadonhos.
Quando não chovia, o sol queimava de maneira impiedosa. Os velhos desfilavam com seus chapéus de palha e os mais jovens com bonés de algum candidato da última eleição. O suor escorria por seus rostos e corpos semicobertos. Os músculos se contorciam enquanto carregavam malas, caixas ou algum outro peso, em troca de centavos.
Apesar de tudo, a rodoviária era para Catarina um lugar mágico. Os mais incríveis espetáculos podiam se ver naquele lugar: a domadora de galinhas, o equilibrista (de malas)... Mas o que mais encantava Catarina eram os gritadores. "Teresina-Piauí, quem vai, quem vai?!", "Santa Inês, aqui, aqui!!". Funcionários das empresas rodoviárias que vendiam a gritos bilhetes de passagem, ou ainda homens que berravam na rodoviária em busca de passageiros para transporte alternativo. Lotavam ônibus, vans, paus-de-arara, todo e qualquer transporte.
Catarina sonhava um dia gritar assim também e encaminhar aquelas pessoas a seus destinos, quase como deus. Ficava encantada com aqueles homens, suas vozes fortes e poderosas. Não era só gritar, tinha a simpatia, as rimas, a entonação certa.
Queria mesmo entrar em cada ônibus que passava pela rodoviária e conhecer o mundo inteiro. Sonhava com este dia: sua mãe ficaria chorando e acenando da plataforma número 05. Ela seguiria estrada a fora, conversando com a senhora sentada ao seu lado. Logo depois de sonhar com tudo isso, olhava ao redor e lá estava ela, de volta à velha rodoviária de Açailândia. Temia nunca sair dali. Como sua mãe, que ainda esperava pelo marido, que um dia pegou o ônibus para a cidade grande, com a promessa de dar a ela e aos filhos uma vida melhor.
A menina crescia assim, ali, envolta em cheiro de frango e frituras, rodeada de homens suados e sem camisa, carregando peso, naquele lamaçal de janeiro-sangue, ouvindo gritos desesperados: São Luís, últimas vagas! Quem vai, quem vai?!
Foi ouvindo esses gritos que Catarina subiu no ônibus. Era fim de tarde, as luzes da cidade começavam a iluminar as ruas esburacadas e conferiam uma cor alaranjada à noite que chegava. A cidade estava um pouco vazia. Havia chovido aquele dia. A mãe e o irmão de Catarina acenavam para ela, que os via da janela. Viu sua mãe chorar um pouco, como em seus sonhos de menina. Sentiu um aperto no peito. Engraçado: sempre achou que sentiria um alívio ao deixar aquele lugar, a rodoviária, os homens suados, o odor de frango e frituras.
O ônibus começava a percorrer as ruas da cidade rumo à capital. Catarina via a paisagem, que aprendera a admirar, ficar para trás, como sua família e os pensamentos de menina. A pequena viajante já não era tão pequena assim, mas ainda guardava consigo alguns medos e questionamentos. O que haveria para além dos limites de Açailândia?
Não era uma senhora que viajava ao seu lado, mas um senhor de feição rabugenta, com que ela não iria se atrever a conversar. Ficou calada, vendo a rodoviária se distanciar cada vez mais. Tudo era despedida. Até a cidade parecia dizer: “Tchau, Catarina! Até!”.

10.11.2006

Tenho tido vontade de ler e reler certas linhas. Uma doce melancolia me invade meio sem porquê. Tenho tido momentos agradáveis que não explicariam essa sensação que me toma agora. Talvez seja só o meu eu dizendo que ainda é.
Foto: Rai
Intervenção: S.Q.C.
Um pedaço do Timor
UM DIA A MAIS

um dia a mais
quisera eu ter
para correr pelos campos
mergulhar nos mares da minha vida
e só então
depois
naufragar em alguma praia...
para sempre esquecida.

9.20.2006

Era sempre assim. Todo dia 19 o céu ficava cinza e melancolicamente chorava. Era um pranto bonito, apesar de triste. O tom de cinza não combinava com o vermelho-sangue (cor do 19). Não me perguntem o que isso significa! Ela, que era dona dos dias 19, tinha uma relação sinestésica com cores e números (com outras coisas também, talvez). Mas o cinza teimava em pincelar seu céu de 19. (Continua... Algum dia... Talvez no próximo dia 19.)

8.30.2006

Esquecer seria talvez uma maneira de mentir? Abstrair verdades e assim torná-las um não-acontecimento, algo que nunca existiu. Sei lá, sigo mesmo achando que é mentir o que se faz quando se esquece o que não se quer lembrar. Mentir verdades tortas e fazer delas tortas de mentiras (Rs). Deixa pra lá! Nem sei o que quero dizer...

eSQCiminto(?)

Voa palavra
encantada pelo tempo
perdida
esquecida
verso inacabado
palavra que não ouvi
não falei
voou
murmúrio
lamurioso esquecimento de mim.

8.24.2006

Prêmio Porta Curtas no Festival de Curtas de São Paulo 2006!!!

Através desse link, podemos assistir a 40 novos curtas-metragens brasileiros da seleção oficial do Festival de Curtas de São Paulo 2006. Os usuários do porta Curtas Petrobrás poderão votar nos filmes de sua preferência – os 3 mais votados receberão o prêmio Porta Curtas. Os filmes estarão disponíveis para streaming durante os dias do Festival - de 24 de agosto a 2 de setembro - e a votação online começa na noite de hoje, quinta-feira, 24 agosto. Abaixo, alguns curtas:

Ao norte

Alguma coisa assim




8.22.2006

Ontem choveu. Foi uma chuva bela e doída. Um lamento talvez.
Não há nada mais poético do que a chuva caindo por detrás da vidraça, construindo caminhos efêmeros. Então, vêm aquelas lembranças da infância, como um sonho, e você se vê em transe, anestesiada. É uma sensação única.

8.06.2006

A vida coagulando em minhas veias...

Este foi o primeiro texto postado neste blog. Quer dizer, uma parte dele apenas. Agora o mostro na íntegra.

Foto: eSQCer
Qual é o caminho que se pega quando não se tem aonde ir? Você diria qualquer um, mas eu respondo caminho algum. O melhor é não fazer nada. O silêncio talvez diga algo, quem sabe... Talvez ele só fique quieto, como todo silêncio. E ria, baixinho, do meu desespero, da minha impotência.
Como você. Que não entende minhas lágrimas sem sentido ou meu olhar perdido em algum canto da sala.
Quando é que vai amanhecer?
Ouço passos perdidos atrás da porta. São 2h da madrugada. Você perdeu a chave do quarto e eu não vou abrir. O lado de fora não me interessa mais.
Você bate na porta. Eu finjo que estou dormindo. Ouço sua respiração e percebo sua impaciência. Será uma longa madrugada...
Caminho até à porta e a divido com você. Cada um em seu universo paralelo.
Conversamos em nosso silêncio cotidiano.
Você está dormindo? Você sempre dorme quando tento conversar.
Estou cansada. Talvez não esteja aqui quando encontrar a chave da porta. Onde fica a saída de incêndio? Tem uma escada na janela. Você sabe que tenho medo de altura. Então, me pergunta o que quero afinal.
Quero voar com os pássaros por sobre a vida. Quero ver de longe o céu derramar seu pranto. E retornar, aliviada, para algum lugar que eu possa chamar de lar. Dentro de mim. Ser é tão vasto... Meu mundo é deveras imenso e não sei onde me esconder quando a angústia esmaga minhas cordas vocais.
Você ainda está lá fora. E já faz muito tempo que não diz nada. Eu sempre falo sozinha. As paredes parecem me esmagar aqui dentro. Você grita comigo, tentando me reanimar. E no delírio de minha tormenta, relembro uma vida que jaz em alguma esquina da cidade.
O vinho transborda e a taça, estraçalhada em pequenos cristais, rasga a mão trêmula que se banha num vermelho escarlate.
A mancha no chão é ainda vibrante como as cores de uma manhã ensolarada de verão, como a tela que pintei ontem com as cores do entardecer.

7.14.2006

Luiza e seus cacos de vidro

Os primeiros raios de sol entravam pela janela da sala sem pedir licença e o recinto foi se enchendo de uma manhã primaveril com cheiro de infância. Ela caminhava descalça pela casa e podia ouvir sua mãe dizer-lhe para calçar as sandálias. Riu da doce lembrança. A casa já não estava cheia de crianças correndo e gritando, nem de tias na cozinha fazendo o almoço. Agora, havia apenas Luiza e seus milhões de cacos de vidro.
Fazia vitrais. Dos mais diversos tipos e cores. Construía pedaços de vida, lembranças e sensações. Passava horas mergulhada num imenso mar-cristal, selecionando cada pedacinho de vidro, identificando sua origem, se eram de garrafas, de alguma taça ou de outros vitrais. Sim. Tinha de separá-los. Para talvez depois juntar tudo de novo. Mas agora sabia o que era o quê e qual a melhor forma de uni-los.
Não era um trabalho muito fácil, necessitava de paciência e olhar apurado. E isso Luiza tinha de sobra. Era muito observadora e o tempo parecia correr lentamente, dando a ela tempo de sobra para viver cada detalhe do dia.
Luiza colava os cacos como quem reconstruía vidas. Sentia-se poderosa. Mas ela não definia de imediato o que representaria o vitral. Não queria ser Deus. Ia acomodando os pedacinhos de garrafas, taças ou outros vitrais como se lhe faltasse a visão. Não gostava nem mesmo de imaginar no que aquilo poderia se transformar. Preferia caminhar no escuro, apalpando as paredes, mesmo que no final verificasse que o resultado deixou a desejar. Fazer o quê? É assim que as coisas são construídas no fim das contas. Além do mais, seus vitrais não eram meros pedaços quebrados de alguma coisa: eram sua vida, reconstruída a cada dia, com novas cores e texturas.
Luiza é como a primavera, que chega devagar, depois de uma longa estação fria e melancólica. E ocupa todo o espaço, trazendo flores e odores inebriantes. É como as margaridas em uma manhã ensolarada. E é na delicadeza de sua simplicidade que ela é incomparavelmente bela.
Cristalina Luiza. Tão delicada quanto seus vitrais. Tão frágil quanto a vida vista das janelas da sala-de-estar.

6.30.2006

No meio do caminho

Éramos três crianças perdidas na imensidão da noite. A lua iluminava nossos passos titubeantes. Eu quase caí e você me segurou tão forte que suas unhas ficaram cravadas em minha pele. Ela caminhava sempre na frente. Nunca olhava para trás, para nós. Mas você também olhava pouco pra mim, que estava há km de vocês. E assim íamos os três seguindo pela estrada sem acostamento. Cada um em sua faixa, respeitando os limites de cada linha traçada no asfalto. Chegamos a algum lugar chamado Paraíso. Havia pessoas nas calçadas de casas pequenas e engraçadas. Elas olhavam para nós, curiosas. Mas não havia nada de interessante para se descobrir ali. Éramos só crianças perdidas... Paraíso era um bom lugar para se viver, mas eles não queriam ficar. E ainda não era hora de nos separarmos. Então, seguimos mais uma vez pela estrada, mas agora era dia. Eu corri sem rumo, gritando muito. Os dois ficaram para trás. Juntos. Sentei mais adiante para esperá-los. Ela me olhou e disse alguma coisa que não entendi. Ela sempre dizia alguma coisa que eu não entendia. E eu nunca perguntava o que ela queria dizer. O gosto do asfalto quente estava impregnado em nossos hálitos. O sol escaldante nos trazia miragens de um provável fim de jornada. Mas ainda havia muito o que caminhar e a estrada a cada passo parecia prolongar-se um pouco mais. Paramos um instante na margem de um rio esquecido como nós. Já era noite e as luzes dos postes penetravam profundamente a água e, como grandes e radiantes pilares, pareciam sustentar aquele imenso rio. Faltava para nós pilares como aqueles. Faltava um pouco daquela luz para banir o breu de nossas noites melancólicas. Fogos despontaram no céu de repente. Ele nos pegou pelo braço e rodopiamos embriagados de sede. Três crianças em êxtase. Caímos na grama, exaustos, e contemplamos os pontos brilhantes que surgiam sobre nossas cabeças. Quando acordei, reparei na delicadeza com que ele a abraçava e no doce sorriso que ela estampava, como sempre desdenhando de minha fraqueza. Eles já estavam km à minha frente. E foi na bifurcação à diante que percebi que o meu caminho era o da esquerda. Não olhei para trás. Sigo em paz agora.