5.27.2010

Portão nº 5


Dona Eulália nunca tinha visto um avião de perto. De repente, estava em um aeroporto, observando embarques e desembarques. Vinha do Rio de Janeiro, para onde havia seguido de ônibus, enfrentando longas estradas. Seu destino: São Luís. Uma conexão a trouxera a Belém. Foi onde a conheci.

Ela estava sentada, solitária, em uma enorme sala de embarque, diante do portão 5. Eu ia ao banheiro, quando percebi seus olhos, aparentemente, aflitos em minha direção. Fiquei em dúvida se realmente precisava de algo. Ela não me chamou e eu segui meu caminho.

Mas aqueles olhos me seguiram e não pude ficar alheia. Ao sair do banheiro fui conversar com a senhorinha. Foi quando descobri seu destino - minha amada terra natal.

Dona Eulália estava preocupada porque, há poucos minutos, as pessoas que lotavam aquela mesma sala haviam embarcado. Ao ver, porém, seu bilhete descobri que dona Eulália estava deveras adiantada - exatamente duas horas.

Tirando um pedaço de papel do bolso, ela me pediu para telefonar para um celular ali anotado. Era o telefone de sua filha, a quem deixara na cidade maravilhosa.

_ Pode ligar a cobrar, ela disse.

Disquei o número e lhe passei o fone.

Após uma breve conversa, dona Eulália desligou e sentou-se ao meu lado. Agradeceu-me com toda gratidão de pessoa humilde que era:

_ Deus te proteja, te dê saúde e te ajude no seu trabalho!

Perguntou se eu era "aeromoça" e resmungou algumas coisas sobre a companhia pela qual viajava.

Conversamos por mais algum tempo. Me falou onde morava em São Luís e disse que seu filho ou sua neta a receberiam no aeroporto da Ilha do Amor.

Expliquei a ela sobre seu horário de embarque, caso quisesse passear pelo terminal.

_ Não, minha filha. O "aeromoço" disse para eu aguardar aqui e não sair de jeito nenhum.

Estava preocupada também com sua condição de idosa:

_ Tem muita gente que se aproveita de nós, aposentados.

Não queria deixá-la ali, sozinha, mas precisava voltar ao trabalho. Passei-lhe mais algumas informações, caso precisasse usar o banheiro, sentisse fome ou sede, e me despedi.

Com o coração apertado lembrei-me de minha querida avó, que há um mês ficara viúva e a quem não pude consolar com um abraço. Senti certa inveja da senhora que iria voltar para o seio de sua família, para o seu lar.

Após cruzar o portão número 5, dona Eulália me deixaria para trás e eu amargaria a solidão, não de uma sala de embarque, mas de toda uma cidade ainda estranha.

4.11.2010

Bye, bye, São Luís...



Sempre pensei em como seria o dia em que sairia de casa. Achava que seria após o casamento, mas foi outro tipo de compromisso que me tirou do lar: o trabalho. E não foi só de casa que saí... Foi do Estado.
Em comitiva, família, amigos e o noivo me acompanharam até o aeroporto. Foi um trajeto difícil. Aquelas ruas tão familiares me levavam agora a um mundo de incertezas, de mãos dadas comigo, assim como as pessoas queridas à minha volta.
Ver aqueles que sempre lutaram por mim e comigo com os olhos vermelhos e marejados, me fragilizou deveras. Queria dizer: "tudo bem, a gente se prepara a vida inteira para esse momento natural". Mas eu não estava preparada.
E como uma criança perdida em praia num dia de domingo, eu chorei desesperadamente.
Mais tarde, sozinha, ao voar sobre a noite de minha velha e boa cidade, constatei a beleza daquele mapa luminoso e parti rumo ao desconhecido. Sou uma folha em branco novamente.

8.14.2009

O GATO DA MINHA MÃE


Desde criança, tivemos em casa muitos animais de estimação. Um deles, porém, nos marcou consideravelmente. Não que os outros não tenham deixado sua marca, mas este... Era um gato siamês, grande, barrigudo, preguiçoso, um bom companheiro. Ele morreu esta noite.
Como disse no início, sempre tivemos animais: cachorros das raças rotwailer, akita, pastor alemão, dálmata, labrador, vira-latas, até um pombo eu já criei. Mas os gatos, não sei, sempre gostei de tê-los – acho que sua independência preenchia o que faltava em mim. E embora digam que são interesseiros, os meus eram amorosos e cúmplices.
Meu primeiro gatinho foi presente da minha avó. Era um filhote de sua gata P&B. Os gatos da minha avó eram sempre P&B. Os meus, não. Geralmente eram rajados de cinza, branco e preto, mas já tive um completamente preto, de olhos amarelados, bastante peralta, confesso: o terror da minha mãe. Adorava arranhar seu sofá. Ele morreu atropelado. Só soube da notícia depois. Na maioria das vezes, eles sumiam. Acho que cansavam e iam buscar outros ares. Ou quem sabe, minha mãe arranjava outra família para eles às escondidas – ela fez isso com um cachorrinho que tive uma vez, desde então, duvidei do sumiço de alguns bichos.
Nunca fui de colocar nome em gatos. Em cachorros, sim; eles precisam mais disso. Mas os gatos... Eu os chamava de bichano. Eles nunca reclamaram, acho até que gostavam bastante. Nosso último gato foi um presente para a minha mãe, que como eu, partilhava de um amor especial pelos felinos. Eu devia ter treze ou catorze anos e morávamos no interior. Meu pai e eu compramos, na verdade, dois gatos siameses. Eles eram inseparáveis e manhosos.
Um dia, a filha da vizinha me chamou para reconhecer um gato que ela encontrara no beco de sua casa. Morto. Era um de meus gatos. O menor. Já devia estar morto há alguns dias e cheirava mal. Não consigo lembrar o que fizemos com ele. Lembro apenas da tristeza do outro gatinho que agora tinha que se contentar somente com nossa companhia. Mas nos saímos bem.
Depois que nos mudamos para a capital, o bichano tornou-se mais caseiro, engordou bastante e ficou ainda mais preguiçoso. Ele adorava estar no meio das pessoas, sempre à procura de um afago carinhoso ou de um pé para se recostar. Lembro de seu olhar sonolento e de seu miado agudo quando nos via com seu pratinho de comida.
Doze anos de amizade! Ele reinava entre todos os animais, inclusive os cachorros considerados mais ferozes de casa. Nenhum deles ousava se aproximar do meu bichano, que os dominava apenas com o olhar – e unhadas de vez em quando.
Nos últimos dias, porém, algo nos preocupava. A idade pesava demais naquelas patinhas; minha mãe achava que ele estava ficando surdo. O olfato já não era mais o mesmo, andava cansado. Vinha dormindo perto do portão da garagem, o que nos preocupava, pois o fluxo de carros era frequente.
Ontem à noite, o esperado aconteceu: meu irmão o atropelou ao entrar na garagem. Meu pai foi testemunha, mas não sabia dizer o quanto o acidente poderia tê-lo machucado. Ouvimos sua voz preocupada. Eu e mamãe saímos à procura do bichano. Fui até o portão, na esperança de que ele tivesse só se assustado e saído para rua. Estava escuro. Minha mãe o achou deitado na lavanderia. Quando nos viu, soltou um miado dolorido. Meu coração ficou apertado. Não conseguíamos encontrar nenhum sinal de ferimento aparente.
Papai o pegou nos braços e o colocou em cima da mesa da garagem. O gatinho respirava ofegante e sua língua estava pálida. Percebemos que ele não conseguia andar direito, o que nos fez pensar que a lesão fosse na coluna, pois as patinhas não pareciam quebradas.
Mamãe lhe deu um remédio para a dor e um antiinflamatório. Eu trouxe água. Coloquei uma compressa de gelo em sua coluna. Depois de um tempo, parecia melhor. Forramos um cantinho no chão e ele ficou quietinho. Pedi a meus pais que o levássemos ao veterinário, mas já era tarde, estávamos sem carro (meu irmão já havia saído), minha mãe achava que não havia nenhum pet shop aberto. Ele realmente parecia melhor.
Um tempo depois, minha irmã chegou da faculdade e fui abrir a porta. Contei a ela o ocorrido e aproveitamos para dar uma olhada no bichano. O encontramos próximo à porta e respirava cansativamente, como outrora. Chamamos mamãe. Minha irmã telefonou para uma amiga que tem animais e ela nos falou de um pet shop 24h perto de sua casa – disse que ia avisar o veterinário sobre a situação. Mamãe o colocou em um travesseiro e seguimos eu, ela, minha irmã e minha tia rumo ao pet shop. O bichinho lutava, a respiração fraca. Quando enfim chegamos, já não contínhamos o pranto. O veterinário e seu ajudante aplicaram-lhe remédios, massagem cardíaca, mas era tarde. Eles disseram que não havia fraturas, nem hemorragia. Sua resistência estava debilitada devido à idade e provavelmente já estava doente, o que só agravou seu quadro.
No caminho de volta para casa, o silêncio. Minha mãe o trazia nos braços, sobre o travesseiro. Agora, eu continha o choro e vinha olhando a paisagem através da janela. Não queria vê-lo. Estava zangada com meu irmão, com meus pais que não deram um jeito de levá-lo logo ao veterinário, comigo mesma, por não ter lhe dado atenção ultimamente. Ainda no carro, olhei para ele um instante e seus olhos estavam entreabertos. Parecia o mesmo olhar sonolento de sempre.
Em casa, o colocamos em cima da mesa da garagem novamente. Eu e minha tia o observamos com cuidado. Confesso que ainda procurava algum sinal de vida. Era tarde, mas não podíamos descuidar de um desfecho digno para aquele bom companheiro.
Fomos ao quintal. Eu peguei uma pá e uma enxada. Cada um cavou um pouco. Foi difícil – o solo era muito pedregoso. Cavamos uns três buracos até conseguirmos uma profundidade adequada. No começo, o clima ainda era pesado, mas depois estávamos rindo de nossa falta de habilidade com aqueles instrumentos. Eu me vi criança novamente, “estudando” anfíbios com minha irmã e outros amigos em um matagal perto de casa.
Quando, enfim, terminamos, minha tia o colocou cuidadosamente dentro do buraco. A primeira pá de terra trouxe novamente aquele clima fúnebre. Colocamos madeira em cima para que os cachorros não o desenterrassem. E minha mãe declarou que nunca mais criaria gatos.
Hoje, quando vi seu pratinho de comida, senti uma tristeza profunda. Se os gatos têm sete vidas, onde é que eu estava quando o meu bichano perdeu suas outras seis?


4.30.2009

É difícil fazer a curva quando se andou por tanto tempo em linha reta. O sol brilhou por tempo demais, a vida viveu dias eternos... E eu não sei mais não viver.

4.29.2009

O BAILE


Eu
Você
Nós

A música
A dança
Nós

Os lábios
O beijo
Nós

A multidão
Eu
Você

A sós

5.15.2008

Nas asas do vento

Nas ondas do mar

Ela molha os pés

Com a brisa da praia

Ela vai ao céu

Navegando à deriva

Sozinha segue seu caminho

Viajando sem rumo na vida

Aonde vai chegar?

Aonde vai chegar?

Talvez chegue nas asas do vento

Ao meu pensamento

Talvez viaje o mundo

E quem sabe sem

Nunca chegar

A algum lugar

Que a leve pra longe do tempo

E encontre um alento

Que possa fazê-la parar

De caminhar...

11.20.2007

FUMAÇA


Minha vida é cercada por sinais de fumaça que se perdem com a garoa da tarde.
O chão molhado alivia o que o fogo não conseguiu queimar. E foi tão pouco...
Tão pouco é o tempo que me resta nesse quarto fechado, entre paredes verde-esperança que já não há. Entre fios e tubos que me sufocam. O ar não é mais tão leve como outrora.
Meu corpo é quente. Não como os dias de verão em que meus pais me levavam à praia. O mar não pode mais me refrescar. Talvez apenas sua lembrança.
Mas o que é, então, o lembrar se não chama que arde sem nunca cessar?
É como palavra proferida insanamente e palavra é fogo: queima, impiedosa, o meu silêncio involuntário.
Estou presa, sufocando nesse quarto sem janelas. As minhas estão trancadas por essas pequenas cápsulas de alívio instantâneo.
Meus braços, não os sinto mais. Eu, que achei que nunca precisaria de abraços...

8.15.2007

Quero amar intensamente, perdidamente. Tantas e quantas vezes a loucura de amar me permitir. (Devaneios na solidão de um ônibus)


A penumbra delineia seu corpo nu, debruçado sobre a cama, sua brancura se destaca na escuridão do quarto.
Eu toco sua pele, impregnada de suor – num movimento involuntário você se mexe, como se me dissesse para não tocá-lo. Parece que me repudia depois do exaustivo e prazeroso ato.
Tento dormir, mas há tanta coisa em minha mente...
Deitada de frente pra você, admiro seu semblante sereno. O desenho – perfeito! – de seus lábios me causa calafrios.
Você, enfim, abre os olhos, fixa-os nos meus e diz que me ama. Você é tão lindo depois do sexo!
Sua mão toca meu rosto e, em seguida, meu seio. Sinto um arrepio e me perco novamente em seus braços.
Os dias têm sido mais claros e a brisa mais suave...

7.02.2007

Tambor de Crioula

M. MARAVILHAS

terra do babaçu
do cacuriá
tambor-de-crioula
e do bumba-meu-boi
ah, Maranhão!
terra de um homem só
lugar onde o passado se faz presente
se até hoje os teus mares têm dono
quando há de ser paga tua alforria?
há quem diga que no Maranhão não há verdade
é terra onde até o sol mente!
“M. Maranhão, M. Murmurar, M. Maldizer, M. Mexericar, e, sobretudo, M. Mentir”
como refutar
se também o dicionário aplica sua sentença?
em meio à miséria... a beleza inocente de uma terra humilde
como um diamante bruto te apresentas
terra das palmeiras
M. Maranhão de Muitas Maravilhas!
Maranhão de poetas
de súplicas a Deus
por um dia a mais para o canto dos pássaros ouvir
Maranhão onde o amor
a alegria
e a saudade têm o seu lugar
Maranhão de Josés
Ferreiras
Machados
e Dias
dias e dias a declamar poesias!
terra de lençóis tão brancos quanto a areia do mar!
lugar onde a segunda pessoa se faz primeira
e mais importante
ah, Maranhão!
quantos em teus encantos se perderam!
quantos em teus mares de águas turvas já morreram!
ao mesmo tempo em que és belo
ó Maranhão
és também traiçoeiro.

5.31.2007

Ação de reintegração de posse de terras na “invasão Vila do Povo”, Paranã
D. Francisca das Chagas, 36, desmaia ao ver sua casa ser demolida. O filho, Francisco das Chagas, 13, se desespera com a dor da mãe (FOTO: Douglas Jr.).


Uma casa foi derrubada. Uma família desolada. E os donos de terra continuam com suas imensas propriedades vazias.
Até quando mães terão que morrer por uma vida digna? Até quando seus filhos terão que chorar por um sonho desfeito?
Derrubam-se casas e os alicerces de uma família inteira em troca de status. Que realidade é essa, distorcida? Que palavras estão usando, que não consigo entender? Estarei ficando cega ou com problemas de audição? Então, que gritos são esses que ouço da janela do meu quarto?

5.15.2007

PONTO DE VISTA


A vida é uma viagem e você tá sempre correndo de um lugar para o outro. Algumas vezes se perde, outras acaba se encontrando de vez. O problema é quando você passa tão rápido que não enxerga as placas de sinalização e aí termina dentro do 1º burado do asfalto. Ou quando a vegetação tá muito alta na beira da estrada e, por isso, você distorce as poucas coisas que consegue ver através dela.


Quando o dia tá claro, a viagem é agradável e dá até pra sentir o perfume das flores que a gente encontra no caminho. Mas quando chove e escurece, dependendo da velocidade em que você viaja, e das condições da estrada, pode ser que você fique preso na lama, atolado.


Foi preciso pegar a estrada para ver como a vida é, como as coisas são.


Ainda tem muita cidade pra conhecer e alguns buracos pra desviar. Ou cair...


Tomara que eles não sejam fundos demais.

3.07.2007

Cultaminação

Pra que rabiscar versos sem sentido se nem eu, você ou qualquer outro entenderá o que há no poema? Se a poesia fugiu numa dessas gramáticas cotidianas repletas de regras de sintaxe...
Fingi-se compreender os absurdos de uma ½ dúzia de cultuadores de uma seita esquizofrênica ou funda-se uma nova religião de fundo de quintal. O que dá no mesmo.

2.03.2007

Prece

















Perdida
Entre homens, pedras e algumas poucas flores
Senhor, a água está muito fria
E a sede me consome
O que há para beber?
Minhas pernas vacilam
Meus ossos quebram a cada queda
E os teus ouvidos, Senhor...
Minha prece tem chegado a eles?
A chuva é um triste lamento
Que não suporto mais ouvir
Eu não posso mais

Minhas mãos não guardam
Nenhuma esperança

Estou perdida
Para onde caminhar?
Meus passos
Não Te encontram
Onde estás?
Onde estou, Senhor?
Longe, tão longe...
E a água é muito fria
Sigo pelas encostas
Escorregando algumas vezes
No lamaçal que me envolve
Podes me ouvir, agora?
O ar me sufoca
A água está fria
Mas meu coração queima
Dentro do peito
Podes me ouvir?
Ou estou perdida?

1.14.2007

FEITO NUVEM

O tempo parou pra eu te ver – linda! – passar, toda vestida de azul.
Você sorriu, mas não sei ao certo se foi pra mim. Acho que não. Seus passos, leves, hipnotizam meu olhar, que te acompanham ao atravessar a rua.
Onde será que ela vai?
Não importa. Ela não me leva consigo, mas eu vou com ela mesmo assim, seguindo seu caminhar perdido pelas ruas da cidade.
Você é tão perdida quanto eu. Talvez ainda não saiba disso.
Pensa que é feliz!
Seu vestido dança a cada movimento de pernas. Seus olhos registram os transeuntes, mas ninguém em específico. E eu sou apenas mais um vulto.
Ela é feita de sol e brisa. Seu brilho fere meus olhos e seus cabelos suspensos no ar me deixam tonto. Fico assim, inebriado com sua presença fantasmagórica. As palavras saem soltas, todas de uma vez, mas nenhuma chega a seus ouvidos. Você corre cada vez mais, agora pela areia da praia. Seu vestido azul se confunde com o mar – ou seria com o céu? Já não sei o que é céu ou chão.
Meus olhos se fecharam por causa da areia que voou quando você correu. No instante seguinte, você havia desaparecido, feito as nuvens de algodão doce que minha mãe fazia nos dias de festa. Deve ter voltado para os meus sonhos. Por que é que você sempre foge quando tento te alcançar?

12.20.2006

Por não estarem distraídos

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.
Clarice Lispector

11.23.2006

(A VISITA-Continuação...)

Eles eram assim, inconvenientes como todo bom parente que se preze. Haviam chegado há poucas horas e já se transformaram no pesadelo da pequena Clara, que se via imobilizada naquela sala, menor a cada segundo.
Chegava a noite e aquela visita parecia chegar ao fim, pelo menos era o que Clara queria. Foi quando a cozinheira avisou que o jantar estava servido. Todos da casa sentaram-se nos lugares de sempre. A madrinha sentou-se ao lado de Ivete e o padrinho, para o espanto de todos e horror da afilhada, sentou-se à cabeceira.
Como ousava?!
Com um peso no olhar, a mãe conteve a menina, que explodia de raiva e tristeza. A mãe também não gostara da atitude mal-educada do compadre, mas, como boa anfitriã, relevou a indelicadeza.
Todos comeram, ouvindo os conselhos dispensáveis do padrinho, que falava pelos cotovelos e causava náuseas na pequena.
Após o jantar, as visitas tomaram mais um cafezinho e despediram-se. A madrinha apertou forte as bochechas de Clara mais uma vez e o padrinho apenas estendeu a mão para dar-lhe a benção.
Clara ficou na varanda, vendo o carro sumir no horizonte: queria ter certeza de que haviam ido embora.
A mãe a chamou para dentro, queria evitar um resfriado – a menina sempre tinha o nariz escorrendo. Ao entrar, pediu a benção à mãe e foi deitar-se.
Ivete encontrou Clara já adormecida, à meia luz, abraçada ao retrato do pai. Beijou-lhe a face e em sua testa fez o sinal da cruz. Desligou a luz do abajur e deixou a porta entreaberta, permitindo que um feixe de luz iluminasse o leve sorriso que Clara inconscientemente ostentava.
O relógio já marcava 7 da manhã e a menina acordara imensamente alegre – havia tido um pesadelo à noite passada e estava feliz por tudo não ter passado de um sonho ruim.
Correu para a praia e, como de costume, rodopiava na areia com o cabelo no rosto. Usava sua saia rodada que rodava rodava com ela e com a brisa da praia. Parou de repente, meio tonta. Era a mãe que gritava seu nome. Lembrou-se do pesadelo que tivera. Clara deu as costas para a casa e caminhou em direção ao mar. A mãe continuava a chamar por ela, que se perdeu entre as ondas.

11.14.2006

A VISITA

Caminhava na ponta dos pés. Toda meiguice de menina. Sua saia rodada rodava ao sopro do vento e ela soltava gargalhadas, enquanto corria sem rumo pela praia, logo cedo.
Os pés, minúsculos, roçavam a areia, que lhe cobria o corpo inteiramente. Seus olhos negros, profundos, enchiam-se de lágrimas na tentativa de olhar o sol, que irradiava sublime aquela manhã. Definitivamente, acordara feliz.
Ouviu sua mãe a chamar. Correu em direção ao quintal, perdeu-se entre as roupas no varal e dançou um instante com elas. Podia sentir-se suspensa, como os lençóis que bailavam ao sopro da brisa.
A mãe gritou uma vez mais seu nome. O chão nunca pareceu fugir-lhe tanto. Deixando pra trás a leveza do momento, dirigiu-se à casa um tanto zangada: a mãe sempre interrompia sua abstração!
_ Mãe! Disse, com toda a birra de criança mimada.
A mãe a repreendeu com o olhar.
_ Venha tomar a benção de seus padrinhos!
Clara surpreendeu-se. Não via os padrinhos desde o batizado e, como na ocasião, era muito pequena, podia-se dizer que nem mesmo os conhecia. Não fazia questão de conhecê-los agora. Queria mesmo era correr pela praia ou entre os lençóis no varal. Perder-se de sua mãe, da casa, das obrigações com a família... E neste momento, dos padrinhos.
Não entendia por que tinha de ter tanta consideração com pessoas que nunca antes haviam dado notícias. E se acontecesse alguma coisa terrível com sua família? Onde estariam os padrinhos que, pela tradição, deveriam acolhê-la? Ficou extremamente zangada, entortando os lábios, como de costume. Tomou a benção e saiu de mansinho para seu quarto.
A irmã surgiu de repente e a mandou vestir o vestido cor-de-rosa.
_ Mamãe mandou! Falou com a autoridade de irmã mais velha.
Clara odiava o vestido cor-de-rosa. Odiava a cor, o vestido, o modo como ficava parecendo uma bonequinha de porcelana colocada na vitrine. Ela só queria correr pela areia, com sua saia rodada que rodava rodava rodava.
Ao voltar para a sala, encontrou a mãe e os padrinhos sentados a tomar o cafezinho-das-visitas. Ficou ao lado da mãe, o olhar baixo para não fitar aqueles seres estranhos que invadiam sua rotina sem ao menos pedir licença.
A madrinha, uma mulher gorda e sorridente, de bochechas rosadas de pó, caminhou em sua direção e a puxou para sentar-se em seu colo.
Quis, desesperadamente, fugir, mas a mulher a prendeu rapidamente entre seus braços. Não pôde fazer nada. Estava presa naquela teia de gordura e flacidez. Mostrava os dentes, amarelados pelo café, entre o riso solto e apertava forte as bochechas da menina, que via a irmã desdenhar da infame situação em que se encontrava.
A estranha elogiava-lhe o vestido cor-de-rosa e tecia comentários inoportunos sobre seu cabelo.
_ Mas este cabelo está precisando de uma hidratação! Veja como é seco de sol e mar! Ivete, não podes deixar a menina solta pela praia!
Como ousava dize tamanho absurdo?! Acabava de chagar e já se achava no direito de pôr o bedelho em todo o lugar!
A pequena Clara olhou para a mãe com os olhinhos cheios de cólera. A mãe retribuiu apenas com um sorriso amarelo, tentando disfarçar o desconforto.
Foi então que Judite, a cozinheira, adentrou à sala com uma bandeja de biscoitos. Clara pôde ver-se livre daqueles braços repugnantes, que se moviam agora em busca de comida.
Era horrível aquela visão! Podia ver o alimento dentro daquela boca imensa e as migalhas, que saltavam para fora dela, enquanto falava sem parar.
Nesse instante, o padrinho, que se mantinha quieto até então, começou uma peregrinação pela sala.
Era um homem pálido, magricela, com ar aristocrático. Olhava a casa, ao seu redor, com certa curiosidade, o que causava desconforto à família de Clara. Depois de algum tempo em silêncio, o homem com nariz empinado sentencia:
_ Esta casa precisa de uns reparos. Uma pintura aqui, uns retoques ali, nada que um homem de visão não possa resolver.
Clara deu um salto do sofá, mas a mãe a segurou firme, apertando seu braço como repreensão, antes que ela pudesse dizer o que estava entalado em sua garganta. Aquele homem detestável atrevia-se ao ponto de achar-se o dono daquele lar, talvez até de tomar aquela pequena família como sua e ser o “homem da casa”! Ninguém jamais tomaria o lugar do pai, falecido havia um ano. A cabeceira da mesa permanecia imaculada, sua presença era ainda viva demais naquele lugar e assim seria pra sempre, pensava Clara.
(Continua...)

10.30.2006

Para Ana Paula

Ana Paula, certa vez, me contava sobre suas estripulias de menina de Açailândia. Fiquei encantada com o saudosismo que havia em suas palavras.
A menina da rodoviária

Gostava de encontros e despedidas. Por isso ia sempre à rodoviária. A mãe inúmeras vezes brigava com a menina, tinha medo de, algum dia, entrar num ônibus e perder-se em outras rodoviárias.
Catarina vivia ali, no meio de desconhecidos, vindos de perto e de longe. Era um lugar sujo e fedia a maior parte do tempo a frango e fritura. Somente de manhã bem cedo o aroma era agradável. As moças do café preparavam uma bebida bem forte, que exalava pela rodoviária inteira, e enrolavam o beijú de tapioca com coco, que dava água na boca em todos que passavam por lá nesse horário. Era realmente uma delícia as manhãs na rodoviária de Açailândia.
Quando chovia, as goteiras tornavam o ambiente ainda mais decadente. As pessoas se espremiam umas contra as outras nos poucos espaços secos que havia. E a piçarra vermelha que rodeava a velha rodoviária se transformava em um lamaçal escarlate, que coloria a paisagem cinza de Açailândia, nos dias de chuva.
As crianças corriam e esbarravam nas bagagens e caixas, espalhadas pelo chão. Riam e choravam a cada reencontro e a cada triste despedida. Os olhinhos mergulhados em lagoas salgadas que sucumbiam ao adeus ou até logo de familiares e amigos. Elas só extravasavam o que as gentes grandes teimavam em abafar pelas plataformas da rodoviária.
Catarina fez muitos amigos ali. Pessoas que revia uma vez ou outra quando, de passagem, saltavam na cidade. Outras, porém, nunca mais encontrou e deixaram apenas saudade na pequena viajante. “Pequena viajante”. Era assim que a chamavam, zombando de seu estranho prazer em perder horas a fio na rodoviária da cidade. Horas que eram marcadas por um grande, sujo e velho – como tudo ali, aliás! – relógio de parede. Pareciam correr lentamente aqueles ponteiros, tornando os dias naquele pedaço de Açailândia ainda mais enfadonhos.
Quando não chovia, o sol queimava de maneira impiedosa. Os velhos desfilavam com seus chapéus de palha e os mais jovens com bonés de algum candidato da última eleição. O suor escorria por seus rostos e corpos semicobertos. Os músculos se contorciam enquanto carregavam malas, caixas ou algum outro peso, em troca de centavos.
Apesar de tudo, a rodoviária era para Catarina um lugar mágico. Os mais incríveis espetáculos podiam se ver naquele lugar: a domadora de galinhas, o equilibrista (de malas)... Mas o que mais encantava Catarina eram os gritadores. "Teresina-Piauí, quem vai, quem vai?!", "Santa Inês, aqui, aqui!!". Funcionários das empresas rodoviárias que vendiam a gritos bilhetes de passagem, ou ainda homens que berravam na rodoviária em busca de passageiros para transporte alternativo. Lotavam ônibus, vans, paus-de-arara, todo e qualquer transporte.
Catarina sonhava um dia gritar assim também e encaminhar aquelas pessoas a seus destinos, quase como deus. Ficava encantada com aqueles homens, suas vozes fortes e poderosas. Não era só gritar, tinha a simpatia, as rimas, a entonação certa.
Queria mesmo entrar em cada ônibus que passava pela rodoviária e conhecer o mundo inteiro. Sonhava com este dia: sua mãe ficaria chorando e acenando da plataforma número 05. Ela seguiria estrada a fora, conversando com a senhora sentada ao seu lado. Logo depois de sonhar com tudo isso, olhava ao redor e lá estava ela, de volta à velha rodoviária de Açailândia. Temia nunca sair dali. Como sua mãe, que ainda esperava pelo marido, que um dia pegou o ônibus para a cidade grande, com a promessa de dar a ela e aos filhos uma vida melhor.
A menina crescia assim, ali, envolta em cheiro de frango e frituras, rodeada de homens suados e sem camisa, carregando peso, naquele lamaçal de janeiro-sangue, ouvindo gritos desesperados: São Luís, últimas vagas! Quem vai, quem vai?!
Foi ouvindo esses gritos que Catarina subiu no ônibus. Era fim de tarde, as luzes da cidade começavam a iluminar as ruas esburacadas e conferiam uma cor alaranjada à noite que chegava. A cidade estava um pouco vazia. Havia chovido aquele dia. A mãe e o irmão de Catarina acenavam para ela, que os via da janela. Viu sua mãe chorar um pouco, como em seus sonhos de menina. Sentiu um aperto no peito. Engraçado: sempre achou que sentiria um alívio ao deixar aquele lugar, a rodoviária, os homens suados, o odor de frango e frituras.
O ônibus começava a percorrer as ruas da cidade rumo à capital. Catarina via a paisagem, que aprendera a admirar, ficar para trás, como sua família e os pensamentos de menina. A pequena viajante já não era tão pequena assim, mas ainda guardava consigo alguns medos e questionamentos. O que haveria para além dos limites de Açailândia?
Não era uma senhora que viajava ao seu lado, mas um senhor de feição rabugenta, com que ela não iria se atrever a conversar. Ficou calada, vendo a rodoviária se distanciar cada vez mais. Tudo era despedida. Até a cidade parecia dizer: “Tchau, Catarina! Até!”.

10.11.2006

Tenho tido vontade de ler e reler certas linhas. Uma doce melancolia me invade meio sem porquê. Tenho tido momentos agradáveis que não explicariam essa sensação que me toma agora. Talvez seja só o meu eu dizendo que ainda é.
Foto: Rai
Intervenção: S.Q.C.
Um pedaço do Timor
UM DIA A MAIS

um dia a mais
quisera eu ter
para correr pelos campos
mergulhar nos mares da minha vida
e só então
depois
naufragar em alguma praia...
para sempre esquecida.

9.20.2006

Era sempre assim. Todo dia 19 o céu ficava cinza e melancolicamente chorava. Era um pranto bonito, apesar de triste. O tom de cinza não combinava com o vermelho-sangue (cor do 19). Não me perguntem o que isso significa! Ela, que era dona dos dias 19, tinha uma relação sinestésica com cores e números (com outras coisas também, talvez). Mas o cinza teimava em pincelar seu céu de 19. (Continua... Algum dia... Talvez no próximo dia 19.)